Que Os Mortos Enterrem Seus Mortos - Parte II

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Armando era engenheiro, o que lhe permitiu fazer muitas modificações no hospital, em particular para reforçar a segurança, fosse contra zumbis ou humanos.

Por isso o hospital tinha uma cerca dupla de arame farpado, com generosas voltas de cerca cortante acima delas. O circuito fechado de TV fazia parte do pacote.

De um monitor em uma pequena sala próxima à recepção do hospital, Armando observava seus visitantes rodearem a cerca, procurando uma entrada.

Até ali, nenhum deles parecia estar armado. Mas aparências enganam.

De repente, de um dos jipes, desceu uma mulher, que parecia muito doente, pois seu rosto expressava forte dor e precisava apoiar-se em um rapaz para se mover.

A presença da moça fez o grupo se reunir de novo. Após alguma conversa, eles estavam voltando para os jipes. Pelo visto, iam embora.

– Merda! – Armando correu. Não gostava de improvisar, mas precisava dos jipes.

Saiu gritando pela porta dianteira do hospital:

– Esperem! Olá! Olá! Esperem!

O grupo parou. Um dos homens voltou para o portão. A moça doente, ainda apoiada em seu companheiro, também. Os demais continuaram próximos aos jipes, esperando o que ia acontecer.

– Boa noite, senhor! Precisamos de ajuda! Nossa amiga foi mordida...

A reação de Armando foi instintiva. O rifle de repetição, que ele mantivera visível mas abaixado, foi imediatamente apontado para a moça.

– Por uma cobra! Calma! Foi uma cobra! Uma cobra!

Ainda desconfiado, Armando baixou o rifle lentamente. Apontou na direção dos homens e da moça.

– Você, você e você: entrem quando o portão abrir. Os demais fiquem onde estão. Eu tenho soro antiofídico mas também tenho balas mais que suficiente, se tentarem alguma graça.

Sem tirar os olhos do grupo, Armando foi voltando para dentro do prédio. Na recepção, foi até o quadro de luz e acendeu as luzes externas e as da recepção. Acionando outro disjuntor, abriu a tranca do portão.

Os dois rapazes e a moça passaram pelo portão e o fecharam. Foram se aproximando lentamente da porta da recepção.

Lá dentro, o clima continuou tenso.

– Tirem suas roupas! Tudo! As da moça também!

– Cara, não precisa nada disso! Somos do bem!

Armando continuou apontando seu rifle para os três:

– Vocês precisam de ajuda e eu quero ajudar. Mas, para isso, preciso me garantir. A escolha é de vocês.

A contragosto, os três tiraram suas roupas. Não satisfeito, Armando chegou a verificar as cavidades dos três, com auxílio de uma lanterna. Não encontrou nada.

– Muito bem: peço desculpas por esse constrangimento, mas são tempos difíceis. Eu me chamo Armando. E vocês?

– Eu sou Augusto e este é Marcelo. Nossa amiga é a Letícia. Pode nos ajudar agora?

- Claro. Por favor, levem a Letícia até a sala de aplicações, é a terceira à esquerda. Eu vou buscar o soro antiofídico.

– Armando – Augusto parecia ser o líder do grupo ou, pelo menos, seu porta-voz – é perigoso os outros continuarem lá fora.

– Vou autorizar a entrada deles assim que tivermos medicado a Letícia, Augusto! Mas sem ilusões: vão passar pela mesma revista que vocês.

Augusto fez menção de retrucar, mas se calou. Cuidar de Letícia era sua primeira prioridade. Junto com Marcelo, abraçaram a moça e a levaram para a sala que Armando indicara.

De seu lado, Armando voltou o mais rápido que pôde, trazendo uma seringa e um garrote.

Aplicou a injeção e Letícia queixou-se de sentir dor durante e após a aplicação.

– Hum – Armando fez um ar pensativo – efeito colateral indesejado, mas não necessariamente algo perigoso. Procure dormir agora, para que o soro possa agir mais rápido.

– Você é médico? – Marcelo abriu a boca pela primeira vez desde que chegara.

– Não, sou enfermeiro. Vai ter que servir, por hora. Bom, vamos trazer seus amigos para dentro.

E lá se foram Armando, Augusto e Marcelo para a entrada do hospital, enquanto Letícia dormia em uma maca.

Armando deixou que Augusto explicasse aos seus companheiros que precisariam passar pelo humilhante processo de revista para serem admitidos no hospital. Houve protestos, mas a necessidade falou mais alto.

Armando revistou meticulosamente os componentes restantes do grupo: o terceiro homem, Rogério, e as mulheres: Cláudia, Lúcia e Júlia. Quando a revista terminou, as três mulheres queriam ver Letícia.

– Sim, vocês a verão, com certeza. No momento, ela está dormindo. Mas, após o jantar, todos nós podemos ir até a enfermaria para visitá-la, combinado?

O grupo estava faminto e cansado. Ouvir a palavra “jantar” melhorou bastante a disposição de todos. Com o banho quente providenciado por Armando, até mesmo o ressentimento pela revista intrusiva amainou.

– Peço que me desculpem por não acompanhá-los, mas eu já jantei. Sirvam-se à vontade. Vou ver como está Letícia e já volto.

O grupo brindou à saúde de Armando e atacou a comida com apetite.

Letícia já apresentava a coloração esbranquiçada e a febre altíssima, características da infecção. Armando sorriu. Para ele, era um ótimo sinal. As moças eram bonitas, seriam uma boa aquisição para o seu harém.

Regressando ao refeitório, encontrou o que esperava: todos desmaiados, alguns sobre a mesa, outros caídos ao chão. Percebeu que Augusto havia tentado vomitar, mas não tivera tempo. Sujeito forte, aquele.

As lutas entre humanos e zumbis no fosso prometiam ser emocionantes aquela semana.

Continua…

 

 

photo credit: Rocky X via photopin cc



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Comentários   

+1 # J. Athayde Paula 22-05-2014 17:47
Minha curiosidade continua atiçada.
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