Que Os Mortos Enterrem Seus Mortos - Parte III

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Armando estava feliz. A gasolina dos dois jipes, mais a que ele tinha de reserva, lhe permitiriam chegar até outras três cidades próximas, com boas chances de encontrar combustível.

Nos jipes, como suspeitara, encontrou armas e munição. Havia também comida. Um conjunto de coisas muito úteis quando se vive numa época em que a civilização entrou em colapso.

Decidiu que partiria em sua busca por suprimentos em dois dias. Precisava organizar as coisas e transformar seus “convidados” em zumbis, forma no qual seriam mais úteis. Sem falar que, na sua forma humana, não sobreviveriam aos dias que ele permaneceria fora. E, claro, tentariam escapar, coisa que ele não podia permitir.

Os pensamentos de Armando foram interrompidos pelo forte barulho de um trovão. Sorriu de novo. Benditos jipes! Aquelas tempestades estavam transformando as fracas rodovias e estradas brasileiras em lamaçais intransitáveis.

Olhou para o relógio: precisava levar Letícia para o necrotério. O sangue infectado que injetara nela já havia começado a surtir efeito e logo ela acordaria, transformada em zumbi. Ele iria acorrentá-la, precisava transferi-la enquanto estava dormindo. Afinal, segurança nunca era demais, especialmente em se tratando de zumbis.

Mas até mesmo um sujeito metódico como Armando estão sujeitos a imprevistos. E ele iria se deparar com um dos grandes.

As fortes chuvas não estavam destruindo apenas as estradas e pontes. Todas as construções feitas pelo homem, agora sem supervisão ou manutenção, estavam deteriorando impiedosamente. Isso incluía a casamata onde ficavam instalados os geradores de emergência do hospital. O local onde fora construída havia sido muito mal escolhido. Ela ficava muito próxima de um barranco, que cedeu exatamente naquela noite, levando consigo uma parte das paredes. As que sobraram não suportaram o peso e o telhado desabou. Como consequência, os geradores explodiram.

A explosão não foi assim tão forte que abalasse o prédio do hospital, mas as suas consequências foram desastrosas: sem geradores de emergência, adeus dispositivos de segurança. Tão logo atingissem a temperatura ambiente, as zumbis adormecidas no necrotério despertariam e só Deus sabia se as fechaduras dos gavetões resistiriam para mantê-las lá dentro.

A explosão pegara Armando no contrapé. Estava portando apenas uma pistola e teria de atravessar todo o hospital para chegar até onde estava o armamento que precisava. Só quando estivesse armado adequadamente poderia se arriscar a atravessar a cidade até o abrigo reserva que havia preparado. Respirou fundo e começou a caminhar lentamente pelo corredor.

Enquanto Armando tentava alcançar seu arsenal, Augusto e Marcelo torciam para que Rogério conseguisse escapar das algemas que o prendiam. Rogério era ladrão de carros e se vangloriava de conseguir abrir fechaduras de todo o tipo. Já escapara da cadeia várias vezes. Era alguém para quem abrir uma algema era brincadeira de criança. Se não o fizera até o momento, era por conta das drogas havia lhes ministrado.

Para Augusto e Marcelo, foi uma tortura interminável esperar Rogério acordar. Foi Marcelo quem primeiro sentiu as mãos de Rogério em seu braço, tateando, procurando pelas algemas.

– Rogério!

– Shhhh!

Com Augusto e Marcelo soltos, era a hora de procurar pelas moças e pelos jipes. E achar também o maluco que os prendera, para um acerto de contas.

A pouca luz da lua não ajudava muito. Também não conheciam o lugar. Por menor que fosse o hospital, isso se transformava num grande problema.

Rogério era bom em escapar de lugares como aquele, mas o problema de resgatar os demais precisava de um estrategista mais capacitado. Passou a bola para Augusto:

– Agora é com você, chefe!

– Não temos muita escolha: é avançar pelo corredor até encontrar as escadas. Temos três andares para vasculhar. Não sabemos onde aquele filho da puta escondeu as meninas.

– Acho bobagem procurar por todos os andares. – objetou Marcelo, que era muito prático. – Estamos no térreo, é mais provável que um cara como Armando esteja mantendo tudo aqui e no subsolo.

Augusto não tinha a mesma certeza.

– Por que você pensa assim?

– Armando deve estar trabalhando sozinho. Senão, teria chamado alguém para ajudar a nos revistar. Se está sozinho, levar peso escada acima não ajuda em nada.

Augusto se rendeu ao pensamento prático do amigo.

– Ok, já que estamos aqui, vamos pesquisar o térreo. Fiquem próximos e atentos. Se acharem qualquer coisa que sirva de arma, tragam consigo.

Sem se afastar muito entre si, começaram a abrir as portas que encontravam. Não tiveram sorte. Inspecionaram metade do corredor e nem sinal das moças.

Ao virar a esquina do corredor, deram um grande azar. Lá estava Armando. Tão logo viu os três, ele começou a atirar. Augusto, Marcelo e Rogério se atiraram para dentro da primeira sala que viram à sua frente, fechando a porta atrás de si com um estrondo.

No corredor, os tiros pararam.

– Fiquem parados aonde estão. - sussurrou Augusto para seus amigos – Vamos ter que aguardar um pouco antes de fazer qualquer coisa.

Rogério estava afoito.

– Parado o caralho! Vou procurar uma janela ou coisa que o valha pra gente sair daqui.

– Espera, Rogério!

– Espera você! Eu vou procurar uma saídaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAARGH!

Um relâmpago na janela revelou o motivo do grito de Rogério: eles haviam encontrado o fosso onde Armando mantinha seus “zumbis-gladiadores”.

Imobilizados pelo medo, receosos de cair no fosso e com medo de que Armando estivesse esperando no corredor para matá-los, Augusto e Marcelo ficaram ali, sentados junto à porta.

Rogério gritou muito enquanto os zumbis o devoravam vivo, mas seus gritos não duraram tanto.

Já o ruído dos zumbis mastigando parecia não acabar nunca.

CONTINUA...

 

photo credit: Rocky X via photopin cc



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Comentários   

0 # alaine 23-03-2015 03:18
:D :lol: gostei muito
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