Que Os Mortos Enterrem Seus Mortos - Parte IV

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Ter encontrado seus “hóspedes” no meio do corredor só aumentou o senso de urgência de Armando. Pelo barulho e pelos gritos, deduziu que eles haviam caído no fosso dos seus “gladiadores”. Gostaria de ter tempo de verificar se estavam todos mortos, mas tempo era um luxo que ele não tinha.

Desceu ao subsolo, até a sala onde guardava seu armamento. Precisava de munição e de armas de grosso calibre. Como já havia estocado comida no esconderijo de seu “plano B”, não estava preocupado com isso. Queria mesmo as armas para garantir que chegaria ao local vivo.

Encheu duas mochilas com armas e toda a munição que encontrou. Ao sair, deparou-se com a porta do necrotério e teve uma ideia.

Munido de um rifle, abriu cuidadosamente a porta. Com o auxílio de uma lanterna, inspecionou a parede dos gavetões. Todas as portas e suas trancas estavam intactas.

Correu e verificou os indicadores de temperatura. Da primeira vez que os viu, não entendeu porque haviam usado aquele sistema antiquado. Agora, estava feliz medidores não precisarem de eletricidade para funcionar, mas apenas do bom e velho mercúrio. Ficou feliz com o que viu: a isolação térmica dos gavetões estava garantindo o frio em seu interior. Elas ainda hibernariam bastante, se fossem deixadas lá.

Mas isso não era mais o que Armando desejava. Tratou de abrir todos os gavetões. Se algum de seus “hóspedes” tivesse escapado do fosso, com certeza não escaparia de suas “belas adormecidas”. E ele ainda teria tempo de sobra para chegar ao estacionamento, pegar um dos jipes e partir.

De sua parte, Augusto e Marcelo estavam se recompondo da trágica morte de Rogério. Sem muita escolha, abriram lentamente a porta da sala onde estavam e voltaram ao corredor.

Caminharam lentamente, com todo o cuidado para não fazer barulho. Foram surpreendidos, porém, quando uma porta abriu, poucos metros a frente dos dois. Dela saiu Armando, desequilibrado pelo peso das mochilas e tentando segurar uma lanterna debaixo do braço. Ele não percebeu os dois amigos atrás dele.

Marcelo aproveitou a distração de Armando. Agarrou um extintor de incêndio da parede e desferiu uma violenta pancada na cabeça do necrófilo. Este desabou ao solo, onde permaneceu imóvel.

– Tomou no cu, filho da puta! – gritou Marcelo, feliz pela revanche.

Augusto pegou a lanterna que Armando trazia e a entregou para Marcelo. Com o amigo apontando o facho de luz para o corpo caído no chão, ele aproximou-se com cuidado e verificou seus sinais vitais.

– Más notícias: o filho da puta está morto!

– Ele mereceu! – defendeu-se Marcelo.

– Claro que mereceu, Marcelo! Mas a gente precisava dele vivo para saber onde estão as meninas. Agora vamos ter de procurá-las por nossa conta.

– Mas agora não temos mais pressa, certo? Com ele morto, podemos tomar conta do lugar, certo?

Augusto não respondeu de imediato. Foi olhar as mochilas que Armando trazia.

– Aponta a luz aqui, por favor. Olha só o que tem nelas: armas! O cara ia fugir daqui, tenho certeza. E não era por medo de nós.

– Ainda não entendi onde você quer chegar.

– Os zumbis, Marcelo. Com certeza, este lugar devia depender da eletricidade para ser seguro. E a eletricidade foi pro saco.

- Pois muito bem! – disse Marcelo, apanhando uma escopeta – pegue uma arma para você. E uma lanterna também, se houver alguma nas mochilas. Vamos procurar as meninas!

– Sim, nós vamos fazer isso. Mas antes vamos dar uma olhada na Letícia. Esta, pelo menos, a gente sabe onde está.

Dirigiram-se a sala de aplicações. Augusto foi verificar como estava a amiga.

– Letícia?

Nenhuma resposta.

Augusto tomou a mão de Letícia. Gelada. Sem pulso. Estava morta. Ele desabou de joelhos no chão.

– Ela não resistiu, Marcelo! Merda de líder que eu sou! Prometi a vocês que ia mantê-los a salvo e olha onde estamos.

Marcelo chacoalhou Augusto.

– Pare com isso agora mesmo! Cláudia, Júlia e Lúcia ainda tem chance e dependem de nós. Vamos encontrá-las e sair daqui.

Augusto levantou-se, ainda um tanto resistente. Enxugou as lágrimas e seguiu Marcelo em direção à porta que dava acesso ao subsolo.

Marcelo, porém, não teve tempo sequer de tocar a maçaneta da porta. Esta se abriu, liberando as zumbis que antes lotavam o necrotério.

Marcelo não conseguiu se posicionar para atirar, pois as primeiras zumbis que cruzaram a porta já o agarraram e começaram a mordê-lo. Ele ainda disparou por reflexo, mas não atingiu nada.

O grupo de zumbis se dividiu em dois: as que partiram na direção de Augusto e as que caíram sobre Marcelo para disputar sua carne.

Augusto começou a atirar a esmo. O que o salvou foi Armando ter escolhido bem as armas que ia levar consigo. Augusto não era um bom atirador, mas as rajadas do rifle de repetição lhe permitiram destruir ou incapacitar as zumbis.

Quanto a Marcelo, só restou a Augusto atirar na cabeça do amigo, para evitar que ele também se transformasse numa daquelas criaturas odiosas.

Por algum tempo, Augusto ficou sentado no chão do corredor, chorando e soluçando. Não sentia mais vontade de viver. Perdera sua família para o vírus e agora perdera os únicos amigos que fizera desde que o mundo havia se transformado em merda.

Com a chegada da manhã, alguma coisa dentro dele o fez levantar. Olhou para os cadáveres aos seus pés e confirmou o que já suspeitava: Cláudia, Júlia e Lúcia também estavam mortas.

Um resto de instinto de sobrevivência o levou a procurar pelas chaves dos jipes. Não sabia se ainda queria viver, mas estava decidido a não morrer ali.

Revirou a recepção, o refeitório e, por fim, voltou à sala de aplicações, onde estava o corpo de Letícia.

– Bingo! – exclamou, mas sem nenhuma animação.

Lá estavam as chaves, ao lado da seringa que Armando utilizara para aplicar o soro antiofídico em Letícia.

Com a luz do sol, percebeu que os resíduos na seringa haviam formado uma crosta escura.

- Ué, mas soro antiofídico não é transparente? Isso aqui parece… sangue!

Sua mente se deu conta do que Armando havia feito. Apanhou as chaves para sair dali mas, assim que se virou, deu de cara com Letícia. Sua transformação havia se completado.

E ela estava faminta.

FIM

 

photo credit: Rocky X via photopin cc



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