A Diferença Entre A Ambição E A Ganância

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Eu tinha então trinta e nove anos e estava na maior pindaíba da minha vida. Apesar de sempre ter trabalhado com um bom salário, eu não construíra nenhum patrimônio.

 Pior ainda, estava desempregado fazia um ano, minhas dívidas se acumulavam e já estava vendo a hora em que teria de vender a casa que eu herdara dos meus pais.

 Comecei então a questionar minhas atitudes e meus pensamentos e descobri, num dos meus bordões favoritos, onde estava o motivo do meu fracasso e a receita para o meu sucesso: eu vivia repetindo que "aprendi de tudo na vida, menos ganhar dinheiro".

 Sempre que me interesso por um assunto, não paro até dominá-lo completamente. Comecei a usar então esse talento a meu favor.

 Estabeleci o objetivo de conquistar minha independência financeira e comecei a estudar e a pôr em prática tudo que pude aprender sobre o assunto.

 Eu a conheci numa palestra dos muitos cursos sobre finanças pessoais, para a qual ela fora arrastada por uma amiga.

 Foi amor à primeira vista. Em pouco tempo, estávamos morando juntos. E, tão rápido quanto se fez, começou a se desfazer.

 Montei uma empresa para montar sites para a internet - pedidos que eu atendia durante à noite, pois havia conseguido um emprego para trabalhar de dia. Já ela parecia incapaz de parar em qualquer emprego que fosse. Afinal, nenhum deles estava à sua altura.

 Enquanto eu trabalhava e estudava mais e mais, procurando formas de aumentar o meu patrimônio, ela estudava mais e mais sobre coisas exotéricas e artes ocultas.

 Eu fazia esses cursos pensando que dinheiro é um recurso limitado e, se queremos que ele nos ajude a crescer, tem de ser muito bem administrado.

 Já ela acreditava que dinheiro era um tipo de energia que deveria ser  espalhado pelo Universo, para que ele nos devolvesse em dobro.

 Talvez pudesse até ser uma teoria válida, mas eu percebi que a energia que ela distribuía para o Universo era o meu dinheiro. O dela, ela guardava para si mesma.

 Comecei a cortar esse barato dela e as coisas foram se deteriorando mais e mais. Nossas brigas por causa de dinheiro chegavam a assustar os vizinhos.

 Nosso relacionamento já havia atingido o nível do insuportável e, quando cheguei em casa aquela noite, estava decidido a mandá-la embora. Estava preocupado que ela pudesse reivindicar algum direito sobre a casa que herdara de meus pais.

 Como se pode ver, saímos rápido da fase do "meu bem" para a fase dos "meus bens".

 Mas ao entrar na casa, não fui recebido pela sua já habitual maledicência. Estranhei o silêncio e um leve cheiro ruim que se espalhava pela casa.

 Ao chegar ao quarto, percebi que era ali a origem do mau cheiro. Mas nada no mundo poderia me preparar para a cena que encontrei quando abri a porta. O que vi a minha frente ultrapassava as raias do absurdo.

 O piso do quarto parecia ter se transformado em areia movediça. Afundando nele, lá estava ela, envolta por coisas que pareciam tentáculos cobertos de espinhos, arrastando-a lentamente para dentro do que deveria ser chão sólido e firme. Um deles estava enrolado em sua cabeça, só permitindo a visão de seus olhos. E, em seus olhos, havia pânico.

 Como não tenho nem nunca tive armas em casa, corri para a cozinha e peguei a maior faca que encontrei. Voltei ao quarto e comecei a atacar os tais tentáculos que a prendiam.

 Foi justamente aquele que estava enrolado em sua cabeça quem se soltou para reagir.

 Com a boca livre, ela começou a gritar:

 - Não, imbecis! Não sou eu! É ele! É ele que vocês têm que levar! É ele!

 Minha reação foi imediata. Parei de tentar lutar contra o tentáculo e joguei-me para fora do quarto, batendo a porta com violência.

 Aparentemente, o tal tentáculo voltou a cuidar dela, pois seus gritos cessaram.

 Abri a porta com cuidado. Não havia mais nada, além dos móveis e do silêncio do quarto vazio.

 Peguei um chinelo e joguei sobre o pedaço de chão onde ela afundara: nada. O chinelo bateu contra o piso e ali ficou. O chão voltara a ser sólido. O que quer que fossem aquelas coisas, haviam vindo aqui apenas para pegá-la. Nunca mais houve nenhuma manifestação sobrenatural na casa.

 Também nunca mais tive notícias dela. Denunciei seu desaparecimento na delegacia, mais para me isentar de alguma suspeita do que qualquer outra coisa. Obviamente, a policia nunca a encontrou.

 Foi nesse dia nefasto que aprendi a verdadeira diferença entre a ambição e a ganância: o ambicioso está disposto a se sacrificar para conquistar algo melhor; o ganancioso está disposto a sacrificar os outros pelos seus objetivos.

 ----FIM----



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