O Sangue Sempre Fala Mais Alto

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Minha mãe morreu muito cedo, vítima de um coração que há tempos estava anunciando que o próximo enfarte seria fatal.

 

Assim, ficamos em três homens naquela pequena casa: meu pai, meu irmão mais velho e eu.

 

Não sei porque, mas meu pai nunca mais se casou depois da morte de minha mãe. Ele nunca falou sobre isso comigo e, acredito eu, nem com meu irmão.

 

Diz o ditado que cada louco com sua mania, então lá estávamos nos, seguindo o ditado: meu pai, com sua mania de reformas, acho que ele gastou mais em obras do que muita construtora por aí; eu, com meus livros e meus estudos; e meu irmão, com sua infindável admiração pela marginalidade e tudo que tivesse ligação com o mundo cão.

 

O engraçado é que a única coisa que sempre tivemos em comum foi o fato de nós três gostarmos de armas. Acho que por aquele inexplicável espírito de camaradagem masculina, aliado a falta de uma presença feminina para discordar de tudo, nosso pai nos apresentou muito cedo à sua automática velha de guerra.

 

Em vários finais de semana lá íamos os três para o sítio de meu tio Martinho, praticar tiro ao alvo. Meu pai, diga-se em sua defesa, nunca atirou em nenhum ser vivo. Nunca matou nem um passarinho com estilingue.

 

E lá ficávamos nós, numa pedreira que ficava aos fundos do sítio do meu tio, atirando em latas, garrafas e outros alvos de baixo custo.

 

Meu pai tinha uma pontaria horrorosa. Vivíamos brincando que era perigoso ficar do lado dele; quando ele atirava, tudo em volta virava alvo.

 

Meu irmão tinha uma mira apenas mediana, algo como acertar cinco ou seis vezes, a cada dez tentativas.

 

Já o intelectual da família (ou seja, eu) tinha uma pontaria praticamente perfeita: nunca menos que nove em dez tentativas!

 

Acabou isto sendo a única coisa que eu fazia na qual meu irmão me invejava. E essa inveja não melhorou em nada nosso convívio.

 

Quando meu irmão sumiu de casa aos treze anos para se juntar de vez com os marginais que ele tanto admirava, achei que eu, finalmente, iria ter um pouco de sossego. Mas só estava certo em partes. Primeiro, porque a fuga de meu irmão fez mais estrago na saúde do meu pai do que todos os maços de cigarro que ele fumou a vida inteira. Segundo, porque meu irmão era o esqueleto em nosso armário: a cada encrenca em que ele se metia, lá ia meu pai (comigo a reboque), fazer das tripas coração para tentar livrá-lo.

 

Um dia perguntei pro meu tio Martinho porque meu pai simplesmente não largava o meu irmão apodrecendo na cadeia, que era o lugar dele. Nem sei porque cai na besteira de perguntar. Como meu pai sempre repetia e meu irmão adorava lembrar, lá veio a frase que sempre me atormentava:

 

- O que mais ele pode fazer? É o sangue dele, e o sangue sempre fala mais alto.

 

A ausência sempre presente de meu irmão acabava mais e mais com a saúde de meu pai. E quando ele aparecia, lá iam nossas economias para o bolso de advogados, para tirá-lo de trás das grades, ou para o bolso de algum bandido ou policial corrupto, pra quem ele estivesse devendo dinheiro ou favores.

 

Até no meu primeiro emprego o infeliz me atrapalhou. Consegui emprego numa agência de banco no centro da cidade e, com menos de um mês, não é que o pilantra e seus comparsas resolveram assaltar justo aquela agência?

 

Sobrou pra mim porque, durante a investigação, descobriram que eu era irmão de um dos assaltantes. Pronto! De funcionário exemplar, virei cúmplice! Passei uma noite na delegacia apanhando dos policiais pra contar aonde estava meu irmão.

 

Minha sorte é que ele e os bandidinhos pé-de-chinelo com quem ele andava foram pegos logo no dia seguinte. E o desgraçado não ia me inocentar, não. Como ele disse pro advogado, estava louco pra ver o irmãozinho cdf na cadeia, aprendendo a virar homem de verdade.

 

Foi meu pai que correu atrás do líder da bandidagem no pedaço e pediu pelo amor de Deus pra ele intervir por mim. Em troca da minha vida e da minha liberdade, meu pai deu o carro que ele comprara com tanto suor. O bandidão mandou meu irmão falar a verdade e eu acabei sendo libertado.

 

Perdi o emprego e minha vida profissional só não acabou ali porque eu abri uma empresa e comecei a trabalhar por conta. Sempre fui bom com computadores e logo estava ganhando um bom dinheiro.

 

Meu irmão, apesar de tudo que meu pai gastou com advogado, não escapou de pegar vinte anos de cadeia. Aquilo acabou com o que restava da saúde do velho.

 

Mas eu e mau pai ainda tivemos direito a um último momento de felicidade, antes que ele falecesse, no final daquele ano.

 

Em agosto, no final de semana do dia dos pais, disse a ele que fazia questão de passar aquele dia dos pais praticando tiro com ele, no sítio do tio Martinho.

 

- Mas filho, essa esposa nova do seu tio não vai dar sossego pra gente. Não viu o quanto ela reclamou do barulho na ultima vez que fomos lá?

 

Era verdade. Mas eu já tinha pensado nisso. E entreguei a meu pai uma caixa embrulhada em papel de presente.

 

- Feliz dia dos pais!

 

A cara de surpresa do meu pai me encheu de alegria, que aumentou ainda mais quando ele abriu a caixa.

 

- Você fez um silenciador caseiro! Filho, eu fico cada dia mais impressionado com a sua inteligência!

 

Pra mim, esse foi o final de semana mais feliz da minha vida. Fomos ao sítio do tio Martinho, gastamos umas três caixas de munição e eu pude descobrir que meu talento nato, apesar se ser completamente inútil para mim, continuava ali, intacto: mesmo sem disparar um tiro depois de tanto tempo, não errei um sequer naqueles dois dias.

 

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Meu irmão recebeu o indulto de natal para que passasse as festas de final de ano com a família. Pois assim que colocou os pés na rua, ele desapareceu.

 

Para meu pai, aquilo foi fulminante.  O velho soube da notícia da fuga de meu irmão de manhã e, lá pelas duas da tarde, já estava morto. O coração não agüentou mais aquela decepção.

 

Mal tive tempo de chorar a morte de meu pai. Fora a correria com os preparativos do enterro - ao qual meu irmão, obviamente, não compareceu - eu ainda tinha um sistema gigantesco de banco de dados para entregar na primeira semana de janeiro, e estava bastante atrasado. Além disso, meu pai me deixara mais um problema de herança.

 

Nossa casa fora construída sobre um córrego aterrado e o piso e as paredes da cozinha viviam caindo aos pedaços por causa da umidade. Meu pai decidiu que ia dar um basta naquilo antes do Natal. Contratou um pedreiro, já que ele mesmo não estava mais em condições de tocar uma obra daquelas.

 

Então, meu pai faleceu, me deixando o piso da cozinha completamente escavado, rebaixado em pelo menos meio metro de profundidade.

 

Naquela noite de sexta, eu estava me matando em cima do computador, tentando recuperar o prejuízo do meu trabalho. Foi quando ouvi a chave girando na porta da sala. O filho pródigo retornava à sua casa.

 

- Olá, irmãozinho!

 

- Estava esperando você aparecer. Tudo bem?

 

- Agora que eu tô fora daquela merda, tá ótimo! Tem algum rango aí?

 

- Da uma olhada aí na geladeira, acho que tem macarrão.

 

- Beleza!

 

Enquanto meu irmão comia fiquei pensando no que eu ia fazer agora. Foi quando ele me surpreendeu.

 

- Será que eu podia trabalhar com você na sua empresa?

 

Fiquei bestificado.

 

- Ué, você nunca gostou de computadores...

 

Sem parar de comer, ele respondeu:

 

- Cansei de me ferrar com o método antigo. Com um troco desses aqui - disse, apontando para meu notebook - um cdf como você entra nos computadores de um banco e rouba milhões sem suar uma gota!

 

Eu conhecia bem meu irmão, não sei porque me permiti um fio de esperança. Mas ele ainda não havia terminado:

 

- Ademais, agora que o pai se foi, você tem de cuidar de mim. E continuou comendo.

 

Ele falou calmo e pleno de certeza, como se tivesse repetido uma verdade universal inquestionável. Ele voltara, demonstrando claramente que não aprendera nada com tudo o que acontecera, e esperava que eu estivesse ali por ele, para carregá-lo nas costas, como meu pai fizera a vida toda.

 

Me desviando entre os móveis atulhados pela casa, cheguei até o armário. Meu irmão sequer olhou para ver o que eu estava fazendo. Não tirava a cara do prato.

 

- No mais, lembre-se do que o pai sempre dizia: o sangue sempre fala mais alto!

 

- Então esta na hora de fazer o sangue calar a boca!

 

Surpreso com minha resposta, finalmente meu irmão olhou para mim. E ficou surpreso ao me ver empunhando a automática do meu pai com o silenciador.

 

- Mas o que...

 

Atirei. E foi o tiro mais preciso de toda a minha vida. Acertei meu irmão exatamente no espaço entre as sobrancelhas. Ele caiu no chão como uma marionete que perdeu as cordas.

 

Joguei o corpo sem vida de meu irmão no imenso buraco em que se transformara o chão da cozinha. Confesso que, num arroubo de superstição, joguei sobre ele todo o conteúdo de um saco de sal grosso. Ele tinha a mania de estar sempre voltando, nunca se sabe...

 

Quando o pedreiro chegou na segunda-feira, encontrou a obra pronta. Paguei pelo serviço que ele fizera ate ali e o dispensei.

 

Não sei se foi o sal grosso, ou se realmente os mortos não voltam, ou se o diabo não deixou meu irmão dar uma voltinha fora do inferno, mas o fato é que morei o resto de minha vida na casa sem ser incomodado por mais nada ligado ao meu irmão.

 

O sangue finalmente se calara.

 

----FIM----

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