O Senhor Das Moscas

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“Não faz muito atravessei um período de tão forte crise espiritual que escrevi uma longa carta a um monsenhor que admiro e estimo, contando-lhe tudo. Usei nessa carta confessional a expressão: "sinto que minha fé está presa por um fio". Sabe o que ele me respondeu? Que se regozijava por saber que a coisa era assim, pois não confiava muito nas chamadas "fés inabaláveis" dessas que julgam poder deslocar montanhas. São demasiadamente teatrais para serem profundas — escreveu o monsenhor. "O fio que prende a sua fé deve ser do melhor aço e portanto resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo." Terminou a carta assim: "Reze a Deus, peça-lhe para que faça esse fio resplandecer sempre a Sua luz".”

 

(Padre Pedro Paulo – Incidente Em Antares, de Érico Veríssimo)

 

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Parte I – As Peças Do Jogo

 

Padre Tiago sempre trouxera dentro de si uma certeza e uma dúvida.

A certeza era que chamá-lo de Homem de Deus não era uma descrição precisa de sua pessoa. Ele tinha a sua fé, é claro, mas dizer que tinha vocação era ir longe demais sem saber a verdade dos fatos.

 

Nascido numa família muito pobre do interior do Paraná, o pequeno Tiago tinha duas opções: passar o resto de sua vida na roça com a família ou entrar para um seminário, se tornar padre e poder dar prosseguimento aos estudos que a família jamais poderia pagar. Ele não hesitou nem por um segundo.

 

No seminário descobriu que não estava sozinho e que, antes de serem homens de fé, os religiosos são essencialmente... homens. Muitos outros lá estavam por vários motivos que não o atendimento a um chamado divino. E mesmo os que davam claros sinais da vocação sacerdotal tinham seus defeitos, suas falhas, suas dúvidas, seus momentos de fraqueza. Isso lhe deixava com a consciência bastante tranqüila sobre a escolha que fizera.

 

Após a conclusão de seus estudos no seminário, seus superiores decidiram colocá-lo para trabalhar em um abrigo para crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Padre Tiago descobriu então sua verdadeira vocação: cuidar daquelas crianças, para ele, se tornou o que dava sentido para sua vida.

 

Ficava chocado com as histórias daquelas crianças.Muitas vezes o abuso vinha por parte daqueles que deveriam ser a maior fonte de proteção e carinho: tios, avôs, padrastos, pais, tias, madrastas, mães.  Sim, meus caros, mulheres também cometem abusos sexuais contra crianças, mães também maculam seu amor maternal dessa forma. É muito menos comum, mas acontece. E tem o mesmo efeito devastador.

 

Recuperar o que fosse possível da auto-estima, da confiança, da esperança e dos sonhos destruídos pelo abuso, talvez esperar que um dia o sorriso voltasse aqueles rostinhos, de onde nunca deveriam ter saído. Aquilo passou a ser seu grande objetivo. Por aquelas crianças, Padre Tiago enfrentou a dura jornada conciliando suas atividades como padre, o atendimento no abrigo, os estudos de graduação em Psicologia e os diversos cursos de especialização no atendimento de vítimas de pedofilia que vieram depois.

 

Todo esse esforço também tinha a ver com a dúvida que atormentava Padre Tiago. Tratar pessoas que passaram por experiências tão devastadoras não é uma ciência exata. Padre Tiago sabia que haveriam as lembranças, assombrando para sempre os cantos escuros das mentes dos pequenos. Alguns talvez até enveredassem pelo mesmo caminho de sombras, muitos abusadores haviam sido vítimas de abuso quando crianças. Ele jamais poderia ter a pretensão de curá-los por inteiro então, será que o que ele fazia era bom o suficiente? Será que não havia mesmo mais nada que ele pudesse fazer por aquelas crianças? Será que ele realmente estava ajudando?

 

As crianças também eram a grade fonte da quase infinita paciência de Padre Tiago. Especialmente da paciência que ele tinha que exercitar com o Bispo Hermano, seu superior direto. Se Padre Tiago jamais tivera problemas em cumprir seus votos de castidade e pobreza, umas tantas vezes passara perto de mandar seu voto de obediência às favas e dar uns bons cascudos no sujeitinho.

 

Como todo bom carreirista, o Bispo Hermano tinha o dom de colocar suas prioridades a frente das da Santa Madre Igreja. Era um grande especialista na arte da auto-promoção. Os recursos da diocese não eram distribuídos em função das necessidades reais, mas em função do que lhe daria mais visibilidade perante seus superiores.

 

Ele nutria uma grande antipatia por Padre Tiago. Primeiro, porque Padre Tiago sempre queria mais dinheiro para cuidar de suas crianças. Sempre mais pedidos de verbas para o abrigo, pedidos de verbas para estudos. E ele precisava desse dinheiro para promover, assim digamos, as boas obras da diocese.

 

Em segundo, porque toda aquela especialização num assunto tão polêmico, mais cedo ou mais tarde iria colocar Padre Tiago em evidência na mídia. Alguns repórteres já haviam pedido autorização para entrevistar o padre, mas o Bispo negara. Morria de medo que o padre, ou qualquer um que fosse, ganhasse mais visibilidade do que ele.

 

Padre Tiago não sabia do interesse que a mídia chegara a ter por ele e, mesmo que soubesse, só lhe interessaria se fosse servir para conseguir alguma coisa para as crianças. Para si mesmo, ele mantinha um único e pequeno luxo: uma garrafinha de bolso, que ele mantinha sempre cheia de Johnnie Walker Red Label, que apreciava com a devida moderação.

Mas, se não podia ter certeza de que os frutos de seu trabalho eram realmente suficiente para aquelas crianças, outros não pareciam ter dúvida de quanto o padre era capacitado.

 

Era muito comum que o Conselho Tutelar solicitasse sua opinião em algumas situações. Assim, quando aceitou dar seu parecer no caso do pequenos Lucas, de apenas dez anos, Padre Tiago o fez acreditando que sua jornada de vida o tivesse preparado para encarar o que ia encontrar pela frente.

 

Lucas era filho de Amaro Nadel, homem rico e poderoso, milionário do ramo da construção civil. Segundo o relatório que recebera do caso, tudo começara quando a empreiteira do pai de Lucas fora  envolvida em escândalos de corrupção. Durante a investigação, computadores foram apreendidos e neles, além das provas dos crimes de colarinho branco, os policiais encontraram vasto material pornográfico, incluindo fotos e vídeos caseiros dos abusos cometidos pelo sujeito contra o próprio filho.

 

A tentativa de prender o pai de Lucas terminou em tragédia. Encurralado em seu escritório, o empresário recebeu as autoridades a bala e morreu no tiroteio. Morreu rindo da morte. Suas últimas palavras foram desprovidas de qualquer sentido: “Minha alma não é mais minha, mas o menino é meu. Meu para o que eu quiser. E eu vou viver pra sempre através de meu filho.”

 

O Conselho Tutelar queria uma opinião do Padre para decidir se manteria ou não a guarda do garoto com a mãe, Carolina Nadel. Famosa por ser tão arrogante quanto o marido, a socialite não parecia estar adaptando-se bem a nova rotina de sair das colunas sociais para as colunas policiais.

 

Como já estava tudo acertado entre a Justiça e a mãe do menino, só restou a Padre Tiago acordar cedo aquela manhã. Celebrou a missa e, a seguir, foi até a garagem pegar o velho e pequeno Gurgel que a diocese colocava à disposição do abrigo. Teria uma pequena viagem pela frente.

 

Parte II – O Tabuleiro

Em condições normais, os Nadel receberiam quem quer que fosse em sua luxuosa mansão no bairro do Morumbi. Em condições normais, dificilmente os Nadel receberiam um padre em sua casa, salvo isso fizesse obrigatoriamente parte de alguma cerimônia social, como um casamento. Mas aquelas estavam longe de ser condições normais.

 

A mansão, assim como a grande maioria dos bens do casal Nadel, estavam bloqueados pela justiça, devido à investigação da Polícia Federal. Mas Carolina Nadel, naquela altura do campeonato, não queria ficar mesmo na mansão. A maciça presença dos repórteres na entrada de sua casa tiravam-lhe qualquer chance de ter um mínimo de privacidade.

 

Assim, numa manobra hollywoodiana, os advogados da família costuraram um acordo com a Justiça e Carolina Nadel e seu filho Lucas puderam se esconder em um pequeno mas extremamente luxuoso sítio que ninguém, além do próprio casal, tinha conhecimento de que pertencia ao falecido milionário. Era para lá que a família ia quando queria um pouco de sossego.

 

A estrada que dava acesso ao sítio era terrível. Amaro Nadel a mantivera daquela forma para manter o local ainda mais discreto e inacessível. De dentro dos maravilhosos veículos off road que a família possuía, a conservação da estrada pouco  importava.

 

Naquela manhã, Padre Tiago estava dando graças a Deus pelo Gurgelzinho da diocese. Se estivesse em um carro comum, provavelmente estaria preso naquela estradinha horrível, com uma suspensão completamente destruída e uma tremenda cara de idiota, esperando pelo socorro que nunca iria chegar.

 

Seguindo o mapa que a assistente social lhe mandara, Padre Tiago chegou até uma cerca, onde uma cancela automática e um porteiro eletrônico esperavam quem se aventurasse pela estradinha infernal.

 

Carolina Nadel demorou um bocado para atender à campainha. Sua voz no porteiro eletrônico pareceu meio pastosa, a fala lenta sugerindo o uso de tranqüilizantes.  Isso incomodou Padre Tiago. Não era bom que uma mulher naquele estado estivesse ali sozinha para cuidar de uma criança numa situação tão crítica, pensava enquanto a cancela ia se abrindo.

 

Subindo com o carro por uma bela alameda arborizada, foi impossível para Padre Tiago não ficar impressionado com o luxo da propriedade quando parou o carro.

 

A ampla varanda apresentava várias redes penduradas, quase implorando para que alguém deitasse nelas. A casa deveria ter no mínimo uns vinte quartos, era possível contar dez sacadas que davam vista para a maravilhosa piscina da propriedade. Padre Tiago não pode deixar de se imaginar pulando de uma daquelas sacadas para a piscina e nadando para sair do outro lado, de frente para o quiosque com a churrasqueira.

 

Provavelmente, do outro lado, as sacadas deveriam dar vista para as quadras. Não dava para ver dali onde ele estava, mas duvidava muito que não houvesse pelo menos uma quadra poliesportiva do outro lado do terreno.

 

Não pode deixar de se sentir um pouco aborrecido, pensando nas crianças. Seriam instalações maravilhosas para os seus pequenos, se pudesse dispor delas. Mas o Bispo Hermano nunca iria liberar verbas para algo parecido.

 

Balançando a cabeça para espantar tais pensamentos inúteis, tomou o caminho para a entrada da casa.

 

Carolina Nadel não se levantou para recebê-lo, limitando-se a fazer um sinal com a mão para que entrasse.

 

O abatimento da mulher era visível e ela parecia estar fazendo um esforço enorme para não desmoronar. Outrora uma das mulheres mais elegantes do jet set, Carolina Nadel estava vestida com um roupão e sem nenhuma maquiagem. Olheiras profundas marcavam seu rosto. E ao vê-la pessoalmente, o padre comprovava suas suspeitas: era evidente que ela estava fazendo uso de tranqüilizantes para dormir.

 

Quando a mulher começou a falar, Padre Tiago percebeu que falava com uma mãe desesperada:

 

- Padre, tem... algo errado... com o meu menino... – a fala vinha intercalada pelos soluços.

 

- Senhora Nadel, ninguém sai de uma experiência dessas sem graves cicatrizes...

 

- Não, padre... não...é isso. Tem... tem... algo...algo...pior! – os soluços tornaram-se ainda mais profundos. O desespero parecia sufocar a mulher.

 

– O senhor... tem... que ver, padre... meu menino, padre... meu menino...

O desespero venceu a resistência e os calmantes. Carolina Nadel desabou num choro convulsivo.

 

O Padre perguntou onde podia encontrar o menino.

 

_ Lá... em cima... no quarto, Padre... meu menino... meu pobre menino... – e o choro tornou o resto de sua fala ininteligível.

 

Rapidamente o Padre Tiago subiu as escadas e, sem grandes dificuldades, localizou o quarto do garoto. Bateu três vezes, mas não obteve resposta.

 

Fez o sinal da cruz, respirou fundo e abriu a porta...

 

Parte III – Começa O Jogo

Ao entrar no quarto de Lucas, Padre Tiago viu o menino sentado na cama, de cabeça baixa, olhar vazio e balando o tronco para frente e para trás, como se fosse um autista.

 

Sem fechar a porta para que o menino não se sentisse acuado, Padre Tiago aproximou-se cuidadosamente:

 

- Lucas?

 

A resposta surpreendeu Padre Tiago:

 

- Lucas não está aqui no momento – a resposta veio em uma forte voz de homem adulto – mas estávamos esperando por você, Padre!

 

Padre Tiago recuou assustado:

 

- O que é isso?

 

- Me avisaram que o senhor viria, Padre. Me avisaram que o senhor viria tentar tirar meu menino de mim! – Enquanto aquela voz impossível falava pela boca do menino, um cheiro de fezes começou a tomar conta do ar.

 

- Eles me disseram que o senhor é bom no que faz, Padre! – o cheiro ia piorando, provocando náuseas em Padre Tiago – Mas ele é meu, Padre! Meu!

 

- Quem é você?

 

- Ora, Padre, é assim que o senhor trata o pai do seu mais novo paciente?

 

- Amaro Nadel?

 

- Eu disse que viveria para sempre através de meu filho, Padre. Se não quiseram entender, se não quiseram acreditar, o problema não é meu!

 

- Mas... como... isso é... possível? – o mau cheiro já fazia com que o Padre tivesse dificuldades para respirar.

 

- Padre, esta privada humana é minha para o que eu quiser, eu cago, mijo, cuspo e gozo nele porque ele é meu! Então é uma troca justa, Padre... uma troca justa. Eu fico com o menino e eles ficam com VOCÊ!

 

- Eles... quem? Quem? Do que... está... falando? – Vasculhava a sua volta tentando achar uma rota de fuga. Viu que a porta continuava aberta – a rota mais fácil – e sabia que a sacada lá fora do quarto era voltada para a piscina, o que também podia ser uma alternativa.

 

- Desculpe, Padre! Eu não lhe contei... Hoje tem reunião de pais e mestres. Os pais de seus pacientes estão todos aqui. E Padre, eles estão muuuito bravos com o senhor! – e o estranho ser soltou uma gargalhada maligna.

 

Aos poucos, a risada foi se transformando num burburinho cada vez mais alto, e de repente a voz de todos os pedófilos de quem Padre Tiago havia cuidado dos filhos, netos, enteados, crianças abusadas, enfim, ecoavam em protesto dentro de sua mente:

 

- Absurdo! Absurdo! Onde já se viu fazer uma filha esquecer um pai? – protestava uma voz.

 

- Meu filho, Padre, meu filho, o senhor está fazendo meu filho se esquecer de mim. – reclamava outra.

 

- Como pode ser tão insensível? – perguntava mais uma.

 

E essas vozes se sobrepunham num clamor tão grande e confuso que Padre Tiago caiu de joelhos, tampando os ouvidos, numa desesperada tentativa de fazê-los se calarem.

 

- Não! Não! Vocês não entendem... Vocês causaram mal a eles. Vocês! Vocês! – balbuciava em seu desespero.

 

As vozes foram perdendo a clareza e o sentido, transformando-se num zumbido forte. O zumbido de milhares de moscas, que agora cercavam Padre Tiago.

 

- Eu acho que você está numa grande encrenca, Padre! O próprio Senhor das Moscas me autorizou a pegar você. Você sabe o que isso significa, não sabe?

 

O menino-monstro ria, deliciado, enquanto Padre Tiago rolava pelo chão, tentando se livrar das moscas, que se agarravam à sua pele, seu contato espinhoso e nojento se misturando a aquele indizível cheiro de fezes, aumentando cada vez mais sua náusea. As moscas invadiam suas orelhas, forçavam para entrar por sua boca, por seus ouvidos, pelos olhos. Entravam  por baixo de suas roupas. Fazendo um esforço supremo, correu em direção à porta.

 

-Não, você não irá fugir de mim! – e a um gesto da criatura, a porta ia se fechando. Padre Tiago tentou conter o movimento da porta, que prendeu sua mão contra o batente, fraturando-lhe quatro dedos. Ainda assim, tirando forças Deus sabe de onde, ele conseguiu abrir a porta o suficiente para atirar-se ao corredor.

 

Desceu as escadas correndo, quase caindo. Às suas costas, ouvia os gritos da criatura infernal:

 

- Você não tem como fugir, Padre! E o menino é meu! Meu! Meu...

 

Padre Tiago desceu correndo as escadas. Na sala, passou por uma Carolina Nadel desfalecida sobre o sofá. Os calmantes haviam surtido efeito. Mas o padre mal reparou nela e continuou em frente. Precisava livrar-se daquelas moscas nojentas. Sem outra opção, atirou-se na piscina.

 

Aquilo funcionou para espantar algumas moscas. Outras não conseguiram soltar-se a tempo e morreram afogadas.

 

Com muita dificuldade, Padre Tiago terminou de cruzar a piscina. De dentro da água, ainda ouvia os risos assustadores da criatura. Só conseguiu sair da piscina porque a escada de alumínio estava no lugar.

 

Esgotado, desabou sobre a grama, sentindo seu corpo esvair-se numa abençoada inconsciência...

 

Parte IV – Estratégias

Padre Tiago acordou assustado. Pôs-se de pé rapidamente e correu para trás de uma moita.

 

Tremia, tremia muito. Recuperando o auto controle aos poucos, percebeu que tremia porque já era noite e estava frio; tremia porque suas roupas estavam encharcadas mas, acima de tudo, tremia porque estava apavorado.

 

Não entendia porque aquela coisa não havia dado cabo dele até ali. Estivera inconsciente, teria sido uma vítima fácil. Por que o mantivera vivo? Queria torturá-lo mais?

 

A luz no quarto do menino estava acesa, as portas que davam acesso à sacada continuavam abertas. Mas de lá só vinha o silêncio.

 

Padre Tiago procurou o pequeno cantil metálico no bolso de seu paletó. Felizmente ainda estava lá. Sua mão direita doía horrivelmente e foi complicado apanhar e abrir a garrafa naquela situação. A roupa molhada atrapalhava mais ainda.

 

Mas seu bom e velho amigo Johnnie Walker não lhe faltou. Ao descer pela garganta, o forte calor da bebida ajudou a espantar o frio e a clarear as idéias. Precisava fazer alguma coisa, mas o quê?

 

Estava apavorado, queria fugir. Tinha sérias dúvidas se conseguiria. Será que o carro ia funcionar? Conseguiria dirigir naquela estradinha horrorosa? O demônio lhe permitiria chegar a algum lugar? Ou ele morreria num acidente de carro, deixando que aquela abominação seguisse em frente? Fazia sentido. Se morresse ali, chamaria a atenção da Igreja,que mandaria alguém para investigar. Se sua morte fosse considerada natural, Amaro Nadel poderia continuar escondido dentro do corpo de Lucas, sem que ninguém suspeitasse.

 

Não, ele não podia permitir aquilo. Mas não conseguia pensar em alternativas. Precisava de um exorcismo, mas aquilo era extremamente complicado.

 

Precisava, para começar, que os envolvidos concordassem com o ritual. Mas não teria a concordância do menino e a mãe não estava em condições de tomar nenhuma decisão. Aliás, será que ela tinha idéia do que realmente estava acontecendo? Será que aquela hora ainda estava viva?

 

Precisaria da autorização do seu bispo. Isto também estava fora de cogitação. O Bispo Hermano levaria anos avaliando se aquilo faria bem ou mal para sua imagem, isso se ele conseguisse provar que o menino estava possuído. Ele não tinha esse tempo. O menino não tinha esse tempo. E, qualquer que fosse a decisão do bispo, seria tomada em bases erradas. Duvidava que o Inimigo não se aproveitasse disso.

 

Precisaria de alguém experiente no assunto, porque ele mesmo não se lembrava de muita coisa sobre exorcismo. Estudara sobre isso no seminário, sim, mas já faziam muitos anos. Não estava com o Ritual Romano ali, para guiá-lo na execução do exorcismo. Não trouxera nenhuma estola, nenhuma batina, não tinha água benta...

 

Padre Tiago parou por um minuto. Talvez ainda houvesse uma esperança. O que fora mesmo que o fantasma de Amaro Nadel dissera? “O próprio Senhor das Moscas me autorizou a pegar você.” “Não, você não irá fugir de mim!” Se autorizara, era porque não devia estar ali. Senão ele teria dito “não irá fugir de nós”.  Era um fiapo de possibilidade. Ele tinha seu fiapo de fé. De fiapo em fiapo, ia ter de tecer um plano. Que Deus, em Sua infinita misericórdia, lançasse sobre todos Sua proteção.

 

Parte IV – De Volta Ao Jogo

Após certificar-se que Carolina Nadel estava apenas dormindo sobre o sofá e não morta, Padre Tiago voltou ao quarto do menino, rezando a Deus para que nada desse errado. Ele não teria outra chance.

 

O menino estava imóvel, sentado na cama de costas para a porta. Se os espíritos imundos dentro dele comemoravam sua vitória até ali ou arquitetavam novos planos, era impossível saber.

 

Quando a porta do quarto se abriu, seu pescoço retorceu-se em cento e oitenta graus, e olhos vermelhos observaram a entrada de Padre Tiago no quarto.

 

- De volta, Padre? Mas que surpresa agradável. Temos tanto para nos divertir juntos, tanto para conversar...

 

- Não temos nada para conversar. Você não tem nada para fazer aqui. Volte para as trevas, que são o seu lugar!

 

A criatura olhou Padre Tiago de alto a baixo.

 

- Para uma carcaça encharcada, você até que é bem pretensioso, Padre! – e soltou uma gargalhada pavorosa. – Vai fazer o quê, Padre? Me expulsar como? Você nem veio para cá como um padre de verdade! Aliás, você nem é um padre de verdade! Será que não é melhor eu tratá-lo por Doutor Tiago? Hein, doutor?

 

Padre Tiago permaneceu impassível. Sem tirar os olhos da criatura, contornou vagarosamente a cama . A cabeça do menino seguiu seus passos, rodando o pescoço até dar uma volta completa.

 

- Devia ter fugido quando teve chance, Padre!

 

- Para quê? Para que você me matasse na estrada e minha morte não chamasse atenção para o seu plano infernal?

 

- Esperto, Padre, muito esperto! Mas eu ainda tenho como matá-lo e colocar a sua carcaça encharcada naquele seu arremedo de carro pra fazer com que todos chorem sua “morte na estrada.”

 

O olhar se mantinha fixo entre os dois oponentes. Padre Tiago chegou até a porta que levava para a sacada.

 

A criatura explodiu em mais uma de suas pavorosas gargalhadas. Com o susto, Padre Tiago recuou para a sacada.

 

Com uma agilidade felina, o menino pulou da cama e agarrou-se ao peito do padre. Envolveu-o em um abraço de urso e começou a apertá-lo. Padre Tiago sentia as costelas comprimindo seus pulmões, estava cada vez mais difícil respirar. Tentava empurrá-lo, mas não tinha forças.

 

- Tolo! Estúpido! Acha que eu não sei o que você fez?

 

Padre Tiago sentiu seus pés se descolarem do chão. Ele e o garoto estavam flutuando! O medo fez com que ele se agarrasse também a criatura, envolvendo seu pescoço com os braços. Flutuavam e foram subindo lentamente, acima da altura da casa.

 

- Você acha que sou algum fantasminha de filme de terror? Acha que eu não senti que você abençoou a água da piscina? Acha que eu não sentiria tamanha quantidade de água benta, Padre? – a altura aumentava cada vez mais -  Pois agora vou jogá-lo daqui, Padre. E a água não vai ser suficiente para conter sua queda! Você vai morrer dentro da água benta, mas nem ela vai impedir que eu fique com sua alma! Eu vou ...

 

Padre Tiago precisava agir rápido. Alcançando a garrafa de bolso, soltou a tampa, presa por apenas uma volta, e virou todo o conteúdo da garrafa sobre o menino.

 

A criatura interrompeu seu discurso. A face, que estampava um ar de glória, contorceu-se em uma pavorosa careta de agonia. Um urro violento brotou de sua garganta:

 

- Nãããããããããããããããããããããããããããããããããããooooooooooooooooooo....

 

Ainda abraçados, o Padre e a vítima de possessão despencaram dos céus.

Quando atingiram a piscina, a água ferveu violentamente.

 

E novamente o silêncio tomou conta de tudo.

 

Parte V – Epílogo

O bip do monitor cardíaco foi a primeira coisa que ele percebeu. A seguir, sentiu frio. Estava numa enfermaria toda azulejada e coberto com apenas um lençol, que não o aquecia o suficiente.

 

Olhou em volta procurando uma enfermeira. Queria um cobertor e queria saber onde estava e o que acontecera com o menino depois que desmaiara. Mas não encontrou uma enfermeira. Ao invés disso, deu de cara com Carolina Nadel.

 

- Como se sente, padre? O senhor passou os últimos três dias desacordado...

 

- Estou zonzo, mas o pior mesmo é o frio. Será que tem algum cobertor em algum destes armários?

 

Cobertor encontrado, a conversa pôde continuar.

 

- Então, como está o garoto?

 

- Graças ao senhor, ele está bem. Não mostrou mais nenhum comportamento estranho. Eu é que não sei como explicar para as autoridades e para a imprensa porque vocês dois quase morreram afogados na piscina lá de casa!

 

- Onde ele está agora?

 

- Até ontem, estava nesse leito aqui do lado, internado como o senhor. De ontem para hoje teve alta, mas continuou aqui comigo, esperando o senhor acordar. Só não está aqui agora porque foi ao banheiro.

 

- Deviam ter ido para casa.

 

- Talvez, Padre. Mas ele não queria sair de perto do senhor enquanto não tivesse certeza que estava bem. E ele não parou de rezar pelo senhor nem por um minuto!

 

Aquilo era o sinal que Padre Tiago precisava para poder ficar tranqüilo de verdade.

 

- E você? Do que você se lembra?

 

- Padre, eu estava sob efeito de sedativos. Ouvi muito barulho, mas não entendi nada do que estava acontecendo. Só lembro de ter acordado no dia seguinte e encontrado vocês caídos ao lado da piscina. Chamei o resgate. Demoraram um bocado, mas conseguiram chegar e salvar vocês.

 

Com um leve sorriso, o Padre Tiago respondeu:

 

- Então, tudo o que posso dizer é que foi uma forma radical de terapia alternativa. Caso encerrado.

 

Como que concordando com o Padre, a porta da enfermaria abriu-se e Lucas pôde finalmente agradecer ao homem que o salvara de um destino pior que a morte.

 

Naquela noite, Padre Tiago dormiu um sono repousante como poucas vezes fizera na vida. Estava em paz consigo mesmo. Conseguira salvar o menino e calar a dúvida que o atormentava. Se o próprio mal saíra do Inferno para tentar destruí-lo de uma forma tão direta, era porque sim,  ele estava realmente ajudando aquelas crianças.

 

Na manhã seguinte, liderados pelo Bispo Osório de Souza, velho conhecido de Padre Tiago, um grupo de quatro sacerdotes entrou na enfermaria. Entre saudações e manifestações de felicidade pela sua recuperação, Padre Tiago recebeu a informação de que o Bispo Osório estava assumindo a diocese, já que o Bispo Hermano havia sido transferido para um posto no Vaticano.

 

Padre Tiago não pode deixar de se admirar com a boa sorte do tratante.

Mas para ele as crianças estavam em primeiro lugar. Como para o Bispo Osório as crianças também eram prioritárias, aquela se constituía numa excelente notícia.

 

Só que aqueles homens não estavam ali para cumprimentos e trocas de amenidades. Estavam ali para saber o que realmente acontecera. E, a partir dali, tudo que conversaram passou a ser tratado em sigilo de confissão.

 

Ao fim da história de Padre Tiago, o Bispo Osório ainda tinha uma dúvida:

 

- Não entendi: como você sabia que o Inimigo acabaria se jogando na piscina com você, mesmo sabendo que estava cheia de água benta?

 

Padre Tiago já esperava por aquela pergunta.

 

- Bom, espero que entendam que tudo que fiz foi motivado pelo desespero. Eu não tinha como planejar nada muito elaborado, tive de assumir muitos riscos...

 

- Sua posição é perfeitamente clara, Tiago.

 

- Está bem, então. Ele não era realmente o Inimigo. Era apenas um espírito. O espírito de um humano. Estava ali porque um ser do mal o ajudara, mas isso não fazia dele um demônio. Então, pensei que isso me daria alguma chance e elaborei um plano com o pouco que tinha a mão.

 

Padre Tiago tomou fôlego. E continuou.

 

- Quando abençoei a água da piscina, joguei fora o uísque do meu cantil de bolso e o enchi com a água benta. Deixei a garrafa meio destampada dentro de meu bolso, pretendia tentar atraí-lo até a sacada do quarto e jogar essa água nele. Era a forma como pretendia fazê-lo cair na piscina.

 

- Mas pelo que você contou, as coisas não seguiram bem o rumo que você pretendia.

 

- Sim. Ele me agarrou e saiu flutuando comigo. Então, não me restou alternativa, a não ser derramar a água benta sobre ele. E isso fez com que ele perdesse o controle e nós caíssemos na piscina.

 

- Entendo... – o olhar que o Bispo Osório lançou em direção a porta mostrou claramente que estava satisfeito e queria ir embora - Bom, acho que foi uma longa conversa e você precisa descansar. Tem alguma coisa que possamos fazer por você?

 

- Não costumo pedir nada para mim mesmo, mas será que a diocese não me daria uma nova garrafa de bolso para o meu uísque? A minha ficou destruída com a queda.

 

Apesar da seriedade do assunto, os padres não conseguiram conter uma boa risada.

 

---FIM---



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Comentários   

0 # Helene 15-07-2017 22:15
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Muito boa e com final feliz, coisa rara nessas histórias!
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0 # Edson Tomaz da Silva 30-11--0001 00:00
Oi, Amanda!

Quando escrevi "O Senhor Das Moscas" eu só sabia de uma coisa: eu não queria que um cara tão legal como o Padre Tiago acabasse mal no fim. Eu até pensei que o Bispo Hermano merecia se ferrar no meio da história, mas não consegui atinar em como colocar o traste no sítio dos Nadel. Além de que a história iria ficar ainda mais longa.

De qualquer forma, obrigado por seu comentário.

Um BIG abraço e bons pesadelos.
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